Friday, October 19, 2007

Quando as TIC são tecnologias indutoras de crises

Este pequeno projecto de artigo de opinião dá expressão a um tema que, embora relacionado com o multimédia e com algumas das tecnologias que povoam a Sociedade de Informação emergente, nunca é lembrado aquando da análise dos prós e contras da integração destas tecnologias nas actividades de vivência diária. Julgo meritório alguma reflexão, ainda que em tom de análise menos científica, à influência que estas tecnologias têm exercido sobre as relações pessoais de índole mais sentimental. Por outras palavras, namoricos e afins. É por demais notória a participação activa que estas tecnologias têm ganho nas dinâmicas deste tipo de relação podendo, no entanto, talvez questionar-se a influência positiva ou negativa dessa participação.

No tempo dos nossos pais uma carta, uma promessa de encontro ou mesmo um telefonema de um ou dois minutos, dia sim, dia não, seriam suficientes para marcar o ritmo de uma relação. Presentemente a mesma dinâmica seria impossível de manter. As dinâmicas presentes esperam que os dois pólos da relação estejam permanentemente contactáveis e, por vezes, através de vários meios de comunicação em simultâneo. Resultado? Confusão, como seria de prever, senão vejamos os mal-entendidos derivados, por exemplo, de um toque ou SMS por responder, uma presença no Messenger sempre ocupado ou um avatar que se teletransporta sempre que se tenta falar com o mesmo.

Chega-se, em alguns casos, a práticas tão extremistas como a que me foi contado numa tertúlia de amigos. Um casal de recém enamorados ao marcar um encontro no Fórum, ao qual um deles chegaria mais tarde, decidiu adoptar a seguinte estratégia:

§ Ela chegaria mais cedo e começaria o périplo pelas Lojas do Fórum;
§ Ele, ao chegar, “daria um toque” para o telemóvel dela;
§ Ela responderia, e é aqui que toda a idiotice tecnologicamente assistida começa, com um toque caso estivesse na Zara, dois toques caso estivesse na Mango e três toques caso estivesse na Sacoor.

Se esquecermos a publicidade gratuita que acabei de fazer, a conclusão a que chegamos é que algo vai mal, mas mesmo muito mal, na cabeça de algumas pessoas. Proponho que, no caso deste casal, um toque a quatro tempos signifique que precisam ambos de acompanhamento especializado. Mal não lhes faria com certeza.

Se julga que o caso descrito não tem nada de anormal, o que me deixa deveras preocupado, então o que dizer do jovem que passa a vida a fugir, vulgo teletransportar-se, em mundos como o SecondLife pelo simples facto do avatar da sua cara metade passar a vida a meter-se nas suas conversas com outros avatares. A pergunta «Quem é aquela com quem estavas a conversar todo derretido?» parece não conhecer o limite entre o real e o virtual. Esses avatares inoportunos(as) chegam ao ponto de teclar o seu discurso utilizando como tempo verbal a primeira pessoa do plural. Penso que quando um dia programarem a acção de andar de mão dada com beijinhos a cada cinco segundos teremos chegado, neste mundo virtual, ao pico da marcação cerrada online.

Voltando ao exemplo do uso indevido do telemóvel apetece-me ainda fazer menção à estratégia de marcação “in your face” criado pelos telemóveis 3G com inúmeras funcionalidades multimédia. Já não se pode estar descansado em lado nenhum. À pergunta inicial do “onde estás?” foi adicionado a ordem complementar “manda-me uma foto ou um vídeo”. Raios! Pensarão uns. Arquivo! Pensarão outros(as) mais precavidos, com outro nível de literacia técnica e com um conjunto de fotos e vídeos previamente gravados para estas urgências.

Independentemente do tom com que se pode encarar esta intromissão das tecnologias na nossa vida é fundamental reflectir sobre a importância que as mesmas deverão realmente possuir. Exemplos de situações como as mencionadas preenchem o dia-a-dia de muitos sem se darem conta disso e, ao que me parece, têm tomado conta da tal dinâmica que alimenta as relações pessoais influenciando-a, em muitos casos, negativamente. O importante é perceber que, por vezes, algumas tecnologias, embora possam melhorar a comunicação, podem acabar por diluir a importância da mesma. O problema aqui não é da tecnologia, muitas vezes amaldiçoada, mas sim de quem a utiliza e ainda não definiu correctamente o papel da mesma na sua vida.

Se por vezes não telefonarmos a dizer que estamos a sair, podemos acabar por surpreender o outro pólo da relação com uma alegria inesperada. Bem, também podemos acabar por ser surpreendidos ao descobrir um novo pólo desconhecido...Pelo sim, pelo não, é melhor mandar um SMS, um e-mail e um Shout no Hi5 avisando que estamos a sair e vamos a caminho. Não vá o diabo tecê-las.

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